Afinal, a que se destina o estudo?

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*Lupércio Rizzo

lupercio Outro dia, conversando com uma pessoa que trabalha com serviços gerais e esporádicos, escutei  algo que me incomodou, quando, em dado momento, nosso bate papo se enveredou para a  necessidade de estudar e sobre os reais benefícios que a educação pode gerar às pessoas. Qual não  foi  minha surpresa, quando ouvi como resposta que “estudar é bobagem”, que não adianta e que  não fará diferença na vida de ninguém… É fato que estudar e formar-se em alguma profissão não é  garantia de mudança de vida, mas, certamente, não estudar é, e para pior.

Eu, que já passei dos 40 anos, adotei para minha vida uma expressão muito comum aos mais  jovens: a fila anda. Isso é a mais pura verdade, quer em nossos relacionamentos quer em nossas  profissões; na forma como estudamos; escolhemos um restaurante ou em qualquer outra decisão  na vida. Portanto, não estudar é ter a convicção (mesmo inconsciente) que você decidiu ficar para trás. O espaço destinado a este artigo tornaria-se pequeno caso eu resolvesse contar minha história de vida. Ainda assim, vou utilizá-lo para provar que é possível, em qualquer momento, fazer novas escolhas que o levarão a uma realidade muito melhor de vida. Há menos de 15 anos eu era caminhoneiro. Certo dia, indo assistir uma partida de futebol, fiz uma aposta com um amigo sobre o resultado do jogo. A aposta era que se nosso time perdesse eu faria matrícula em uma faculdade da região. Nem preciso dizer que perdi a aposta, né?! Como palavra empenhada é coisa séria, lá fui eu fazer pedagogia. Depois desta decisão tomada em uma simples brincadeira, as portas se abriram e me levaram a novos voos.
Tal qual picada de cobra, em que o veneno entra no corpo e toma conta, a educação fez isso comigo. Fiz pós-graduação, em seguida vieram o mestrado e o doutorado, que acabo de concluir pela Universidade de São Paulo (USP). Em uma das minhas palestras conto essa história com detalhes. Então, o que vale enfatizar na conversa dessa semana é pensar que a educação não deve formar consumidores, nem mesmo deve formar operários, médicos, terapeutas, advogados, pintores ou mecânicos. A educação forma pessoas para pensar e as torna mais capacitadas para fazerem escolhas em busca de uma vida melhor. Vida melhor, neste caso, deve ser entendida como vida plena.
Conversando com aquela trabalhadora, uma pessoa que se mostrou com poucas expectativas pessoais e profissionais, o que se percebe é que ela espelha muito do que os jovens parecem pensar hoje em dia: Estudar para que? Nesta semana, este comportamento foi traduzido em pesquisa. A despeito das condições nem sempre favoráveis do ensino público, a Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (Pnad), realizada pelo IBGE, mais da metade dos brasileiros não tem ensino médio completo. Em parte, isto se explica pela visão utilitarista da vida, que vem marcando nossa sociedade, e que deve ser relativizada quando se trata de educação. Ou buscamos outros valores na vida, que não apenas os resultados objetivos, ou estaremos fadados a ficarmos tentando estimular as pessoas a estudarem para “ganhar” alguma coisa. O Ter um diploma não deve ser o objetivo principal em educação, mas sim o Ser mais capacitado para gerir a própria vida e sonhos. Às vezes, o caminho pode se revelar melhor que o destino. É preciso aprender a aproveitar a viagem.  O meu time perdeu a partida, mas eu sigo conquistando títulos e vencendo meu jogo da vida!

  • Lupércio Rizzo é  doutor em Educação pela USP, mestre em Educação e pós-graduado em Docência Universitária e graduado em Pedagogia.  Atualmente é coordenador de Pós-Graduação no SENAC, pesquisador da Capes/Inep, com participação em pesquisas voltadas à educação e inclusão social, consultor e palestrante em eventos e congressos direcionados à educação, gestão intelectual e formação de professores.

 

 

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