Afinal, você se considera ético?

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lupercio *por Lupércio Rizzo

Não é de hoje, quando temos em curso a maior operação anticorrupção que o Brasil já teve em sua  história, que a ética é pauta de discussões acaloradas e tema de obra de grandes pensadores.  Aristóteles escreveu, há mais de dois milênios um texto fabuloso sobre ética chamado “Ética a  Nicômaco”. Mais que um livro ou um manual, a obra é um verdadeiro tratado. Fernando Savater,  filósofo espanhol do século passado, também produziu um livro importante sobre o tema: “Ética  para meu filho”. A semelhança entre os dois é que, embora o título sugira algo como uma carta  endereçada a  alguém ou uma produção com um destinatário, ambos são reflexões sobre o agir  humano.  Evidentemente, não estou aqui comparando um texto ou outro, tampouco mensurando  a  importância dos pensadores citados, até porque existem muitos outros pensadores que  contemplam o tema com propriedade e profundidade.

Porém, uma pergunta ronda os dois textos: para que serve um ser humano? Vou encurtar a discussão e dar a resposta. Na opinião de ambos um ser humano tem uma única serventia que é fazer os outros seres humanos felizes. Claro que nesse caso os nossos autores se referem a outro ser humano como sendo qualquer pessoa. Qualquer pessoa mesmo!
Para que se alcance isso, o caminho seria a busca da virtude ou o exercício da ponderação e equilíbrio. Nesse caso, o aprendizado viria pelo hábito. Aprende-se a tocar um instrumento tocando; aprende-se a andar andando; a dirigir dirigindo e, por consequência, a ser ético praticando e vivenciando a ética de forma consciente.
Tudo isso é consagrado no pensamento humano, mas parece que as empresas e algumas pessoas insistem em desconsiderar a prática. Outro dia fui convidado por um professor para dar aula de ética no seu curso de pós-graduação. O pedido do colega foi para que eu trabalhasse com Código de Conduta. Então respondi que não consigo dar aulas de código de conduta, talvez nem na minha casa tenha isso. Códigos de conduta se obedecem (ou não), mas não são discutidos. Ética, ao contrário, é o exercício da reflexão, não o exercício da obediência. Atualmente, temos visto diversas discussões acerca dos rumos do nosso país. Embora eu esteja escrevendo na seção de Coaching e Carreira, ética é prática que se faz necessária em toda relação interpessoal, seja no trabalho, em casa, na escola ou em qualquer contato social.
Lava Jato, PEC´s, reforma do ensino médio, descriminalização do aborto, entre outras polêmicas em curso, são todos assuntos que trazem, em maior ou menor peso, a carga da ética. Com as redes sociais, as opiniões ficam expostas e os internautas escrevem como se estivessem falando apenas para seus amigos. Refletir com cuidado e ruminar as ideias é cada vez mais essencial.
Nesse ponto, volto ao convite do meu colega para lembrar que ou tentamos criar um ambiente mais ético dentro do nosso espaço de atuação ou não caminharemos para uma condição melhor. Ensinando Códigos de Conduta não empoderamos pessoas, não estimulamos reflexão.
As mudanças devem começar nas casas, nas empresas, nos comércios, nos clubes, nas igrejas. Educar, ensinar ou liderar é entender que palavras comovem, mas exemplos arrastam. Em uma época marcada por tantos desmandos éticos, impossível não falar sobre a necessária educação para formar pessoas capazes de pensar uma sociedade mais ética. Você tem colaborado para criar um ambiente ético ou ainda clama por Códigos de Conduta?

*Doutor em Educação pela USP, mestre em Educação e pós-graduado em Docência e Pedagogo. Coordenador de cursos de Pós-Graduação no SENAC. Pesquisador da Capes/Inep com participação em pesquisas voltadas à educação e inclusão social.  Consultor e palestrante em eventos e congressos direcionados à educação, gestão intelectual e formação de professores.

 

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